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sábado, 21 de fevereiro de 2009

cap 8: 8 de janeiro - Praia - Miraflores

De volta ao relato do blog!

Dia seguinte acordei umas seis da manhã. Não havia dormido direito, talvez pela agitação da viagem. Resolvi levantar da cama e ir à pé até a praia, distante algumas ruas do hostel. Câmera na bolsa, camiseta nova, sai para a rua e comecei a caminhar. Não estava frio, mas uma brisa fresca vinha da direção do mar. O céu estava branco e coberto. Seria prenúncio de chuva ou seria apenas uma névoa? Fui caminhando pelo canteiro central da José Pardo. De vez em quando havia uma rotatória grande, quase uma praça, no caminho. Em uma delas havia um chafariz no meio e uma série de mastros com bandeiras de vários países. Algumas outras pessoas caminhavam ou levavem o cachorro para passear.

Na noite anterior, após o passeio pelo centro histórico de Lima, a Plaza de Armas, o Parque da Muralha, a Basílica Menor de São Francisco e as catacumbas, ainda continuei meu passeio andando a esmo pela cidade. Meu objetivo, claro, era voltar para a Avenida Arequipa, com seu trânsito caótico, buzinas e ônibus com cobradores gritando o caminho por todo o trajeto. Felizmente eu tenho um bom senso de direção e consegui retraçar minha rota até a avenida, onde embarquei em outro ônibus para Miraflores. Estava cansado de andar mas satisfeito com o dia. Não havia esperado muito de Lima. Para mim era apenas o primeiro ponto de uma viagem que tinha como objetivo Machu Picchu. Mas uma coisa que aprendi na viagem, e que foi muito bom, é a velha máxima de que, geralmente, não é o objetivo que importa, mas o caminho em si. Lima podia ser barulhenta, poluída e "arcaica", mas era uma cidade vibrante e viva.

Cheguei em Miraflores perto das oito da noite. Desci perto daquela rotatória em frente ao McDonald´s, e só havia o esqueleto metálico daquela árvore de natal que havia visto de tarde. Na esquina da Arequipa com a José Pardo havia um shopping alto, uns seis andares, e resolvi entrar para dar uma olhada. Engraçado como, ao cruzar as portas para dentro da loja, sai de Lima para entrar naquela espécie de mundo paralelo que são os shoppings no mundo todo. As pessoas são diferentes, mas até o cheiro (uma mistura de couro, tecido, plástico e ar condicionado) é o mesmo. Se fechasse os olhos podia me imaginar de volta a algum shopping no Brasil. Era um lugar mais voltado à venda de roupas e calçados, em praticamente todos os andares. Confesso minha ignorância geral com relação a preços destes artigos no Brasil, mas soube que eles estavam relativamente baratos por lá. Havia também um andar destinado a aparelhos eletrônocos, celulares, televisões de tela plana, entre outras coisas, com preços que não muito diferentes dos daqui. Ao subir a última escada rolante, fui dar no estacionamento do shopping, onde descobri um fato interessante: ao contrário da grande maioria dos carros que havia visto nas ruas, em geral velhos, usados e de marcas orientais como Nissan e Toyota, os carros que encontrei no shopping eram mais sofisticados. Estava claramente em um lugar frequentado por uma população mais rica da cidade, com seus Mercedes, Renault, VW e GM.

Notei também esta diferença ao caminhar de volta ao hostel "Nômade" pela José Pardo. Miraflores é realmente outra cidade dentro da velha Lima. Nada de ruas estreitas, aglomerações e carros antigos. Ao chegar ao Nômade, tomei um banho (chuveiro quente, tudo certo) e troquei de roupa. Até pensei em voltar até o caminho todo até o Parque Centrale procurar algum restaurante ou barzinho, mas estava cansado. Pelo horário brasileiro já era mais de meia noite, então resolvi procurar algum lugar para comer ali por perto mesmo. Encontrei um restaurante na esquina da J. Pardo, na segunda rotatória em direção à praia. Comi um baby beef muito bom, com fritas, salada e uma Coca-Cola, pelo equivalente a uns 25 reais. Uma coisa que me surpreendi é que a conta veio exatamente com os valores corretos, sem "sacanagem". Digo isso porque, no Brasil, acho comum ter alguma surpresa desagradável ao receber a conta nos restaurantes. É alguma coisa que marcaram errado, ou então o preço exorbitante cobrado pelo refrigerante ou algo assim. Lá eu paguei extamente o que pedi e não havia sequer os 10% de gorjeta na conta. Não sei qual o costume por lá, mas deixei umas moedas e sai para a noite tranquila de Lima, de volta para o hostel. Cansado, fui direto para a cama, depois de uma "zapeada" pelos canais da TV (a cabo, sem programação local).
(por enquanto paro por aqui...prometo atulizar o mais breve possível)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

cap 4: 7 de janeiro - Miraflores - Lima - Perú

Pois é, após ter sido "assaltado" pelo taxista e me instalado no hostel "Nômade Backbackers", na esquina da "Torre Tagle" com a rotatória, resolvi ir explorar Lima. Como quase tudo nesta viagem, não tinha um roteiro muito definido. Parei na recepção do Nômade para explorar uns panfletos e uns mapinhas que havia por lá e o recepcionista perguntou para onde eu queria ir. "Para o centro histórico", chutei eu. E, velhaco com a história do táxi (que, na verdade, são bem baratos em Lima), perguntei se tinha como ir de ônibus. O rapaz disse que o ônibus custava apenas 1,50 sol e que deveria seguir a "José Pardo" até um McDonald´s, onde encontraria outra rotatória. Ali deveria pegar um "bus" até a "Emancipacion". A "José Pardo" é a avenida da foto. Muito bonita, com ruas largas e uma "ilha" arborizada no meio onde os pedestres podem caminhar. Eram nove quadras até o tal McDonald´s, mas eu gosto de andar e era um bom modo de sentir o "clima" do lugar.

O bairro de Miraflores é bonito e bem diferente do resto da cidade, que é muito mais pobre. Fui andando pela J. Pardo e me lembrou um pouco o Bairro Cambuí, região nobre de Campinas, ou mesmo algumas regiões de São Paulo. Prédios altos, geralmente residenciais, entrecortados por outros comerciais e lojas. Passei em frente a um supermercado grande, o "Vivanda", onde depois iria fazer compras, e pelo prédio da Embaixada do Brasil. Havia uma quandidade razoável de pessoas andando pelas ruas e, apesar do rosto marcadamente indígena da maioria, eu poderia perfeitamente achar que estava em alguma cidade grande brasileira. O calor era forte, por volta dos 30 graus. Passei por uma loja da LAN Airlines e tomei nota mentalmente. Talvez eu precisasse comprar uma passagem para Cusco, caso decidisse ir para lá de avião.

Andando com meu passo normalmente rápido, em uns 15 minutos cheguei à tal rotatória, com o McDonald´s na esquina. Ali o trânsito era intenso, embora não estivesse parado, e foi (além da corrida de táxi do aeroporto), minha apresentação à loucura do trânsito da cidade. Os ônibus me chamaram logo a atenção. Pareciam (e provavelmente eram) do século passado. Muito coloridos, com várias faixas nas cores primárias. Na lateral, vários nomes pintados à mão que, descobri depois, eram os nomes das ruas por onde o ônibus iria trafegar. E todo mundo buzinando constantemente.


Na rotatória, funcionários da prefeitura tiravam os enfeites de uma grande árvore de natal. Resolvi explorar as imediações. Além do McDonald´s, havia várias outras franquias internacionais de comida por lá. Fui virando a esquina, à direita, e encontrei vários restaurantes, com muita gente sentada às mesas de frente para a calçada. Já eram por volta das 13 horas (quatro da tarde no Brasil) e eu ainda não havia almoçado. Até olhei alguns cardápios expostos nos restaurantes, mas não tinha ainda noção de quanto valia o dinheiro local. Um prato de 30 sóles era caro ou barato? Ai resolvi usar a cotação internacional do Big Mac. E confesso que, apesar de sentir certa vergonha por não experimentar logo a comida local, resolvi ir pelo caminho seguro e entrei no McDonald´s, onde pedi o mesmo que sempre como no Brasil, versão peruana: um "Cuarto de Libra com Queso", Coca-Cola e fritas. Lamentável, reconheço, mas a fome bateu mais forte. O preço do "combo" foi de 10,50 sóles (equivalente a três dólares e pouco, mais barato do que no Brasil). E é impressionante como o McDonald´s é praticamente igual no mundo todo (já fui nos EUA, Japão, Tailândia e Argentina).


Saindo do Mac, com a fome saciada (ou aquela sensação de estômago cheio que o fast food proporciona) fui até uma grande praça que é o "Parque Central de Miraflores". Era bonito, bastante verde, com canteiros coloridos de flores. Ao fundo, havia a primeira das dezenas de igrejas que veria nesta viagem: a "Iglesia Medalha Milagrosa", que estava fechada. Aliás, isso seria uma constante também na viagem, não sei como funcionam os horários das igrejas no Perú. Ao lado da igreja há o "Parque Kennedy", onde se encontram vários hostels bons para se hospedar, e vi estacionado um grande ônibus turístico vermelho, daqueles em que o andar de cima é aberto, com poltronas para os turistas observarem a cidade. Fui até uma cabine onde se vendiam bilhetes e soube que havia um passeio de três horas pela cidade, incluindo visita a umas tais "catacumbas de São Francisco". Mas não estava com vontade de fazer programa de turista. Queria explorar a cidade por conta própria e, na cara e na coragem, fui até a avenida para pegar um ônibus comum para o Centro Histórico de Lima.
(até o próximo capítulo...)


domingo, 1 de fevereiro de 2009

cap 3: 7 de janeiro - Lima - Peru


Pés no chão, depois de cinco horas de viagem de avião de São Paulo, tratei de ir trocar dólares por dinheiro peruano. Antes, logo ao descer do avião, tive que preencher um formulário de entrada no país e passar pela imigração e alfândega. Este seria o verdadeiro teste da questão do passaporte: ele seria necessário ou o RG só serviria? Ao preencher o formulário de entrada já fiquei bem tranquilo, pois havia até uma opção para marcar se você estava viajando com passaporte ou carteira de identidade. Um senhor me atendeu, pegou meu RG, preencheu um papel e me disse:
"Este papel você não pode perder, cuide muito bem dele!". Era a prova de que minha entrada no país havia sido legal. Eu sou terrível para guardar papéis (como veremos em um capítulo mais para frente), então o guardei junto do dinheiro, na carteira. Falando em dinheiro, ainda no aeroporto troquei 400 dólares por "Soles" peruanos. A cotação estava em aproximadamente 3 sóles para cada dólar, o que significa que tinha mil e duzentos sóles no bolso ao sair para o sagão do aeroporto.
E agora? Eu até havia feito uma reserva por e-mail em um hostel que vi em um fórum de mochileiros do orkut, e eles haviam me prometido, também por e-mail, que um táxi estaria me esperando no aeroporto. Havia vários motoristas segurando plaquinhas com nomes de hotéis e de passageiros, mas não vi meu nome, nem do hostel, em lugar algum. Eram 11:26 da manhã, e decidi procurar um outro hotel na "raça". Não conhecia absolutamente nada em Lima, a não ser o nome do bairro "chique" da cidade: Miraflores. E foi então que cometi meu primeiro erro. No Perú, você NUNCA deve entrar em um táxi sem combinar o preço antes. A base de preço que eu tinha era que o hostel onde eu havia feito reserva iria me cobrar 15 dólares pelo serviço de táxi, então eu, ingenuamente, achei que qualquer um que eu pegasse por ali cobraria mais ou menos a mesma coisa. E mais, achei que se eu fosse até a rua e pegasse um diretamente lá fora seria mais barato e tranquilo do que seguir alguns dos motoristas que estavam caçando passageiros lá dentro do aeroporto. Confesso minha estupidez, e que sirva de lição para quem está lendo isso. O caso é que fui lá para a rua, lá fora do sagão do aeroporto, e vi um homem me fazendo sinal.

- Táxi, senhor? - ele perguntou.
Bom, eu tinha que pegar algum mais cedo ou mais tarde, certo?
- Sim - disse eu.
E lá fomos nós. Entrei em um carro comum (novamente, bobagem da minha parte...onde estava a plaquinha de "Táxi" em cima do carro?), e o motorista, muito falante e bem humorado, foi dirigindo. Me perguntou de onde eu era, para onde estava indo, aquele papo internacional de taxistas. Falei que era de São Paulo, descrevi a cidade, comparei o trânsito que via na rua com o de São Paulo... tudo isso enquanto tomava minha primeira lição de trânsito em Lima: é um caos. Os motoristas parecem ter uma ligação direta entre o acelerador e a buzina, que ficam tocando o tempo todo. Do chão a cidade me pareceu bem menos desoladora do que o quadro que vi lá do avião e até se parecia com algumas regiões mais planas de São Paulo. Fiquei também aliviado pelo fato de que o espanhol falado pelo motorista me soava bastante claro e que conseguia entender boa parte do que ele estava falando, e vice versa, de modo que a comunicação, aparentemente, não seria um problema. Foi então que, no meio da viagem, eu fiz a pergunta fatal.

- Quanto custa até Miraflores?
E o motorista, grande sorriso nos lábios, me disse tranquilamente:
- Quarenta dólares.

Como é?!? Ai ai ai... quarenta dólares? E o motorista começou com um papo de que ele trabalhava para um serviço "especial" do aeroporto, e puxou do bolso uma "tabela" que me deu, mostrando o valor da corrida, acrescentando orgulhoso que ele iria me dar um recibo pelo pagamento e assim por diante. Sentado ali, dentro do carro, em uma cidade que nunca havia posto os pés, cansado depois de cinco horas de viagem, tive que aceitar minha própria burrice e dizer adeus para 40 dólares logo na minha primeira experiência da viagem. Ao menos já estava "vacinado" e alerta. O motorista, ao saber que ainda iria procurar por um hotel, tentou me empurrar para um que cobrava 60 dólares por noite, o que recusei. Ele sugeriu outro de 50 dólares. Não, obrigado.

Enquanto isso, ele pegou uma avenida que seguia junto à praia, que me mostrou, sorridente. Para quem é do Brasil, confesso que o cenário estava longe das praias brasileiras. À esquerda do carro, barrancos enormes. À direita, um mar cinza escuro ia dar em uma praia pedregosa. O morotista pegou uma esquerda, subiu o "barranco" e me apontou uma região com ruas largas e grandes prédios.
- Miraflores - disse ele.
Sim, depois eu descobri que era bonito, mas por enquanto ainda estava pensando nos meus 40 dólares, e em quanto essa viagem iria custar. O motorista me disse que o bairro era muito seguro e me apontou os policiais nas esquinas. Os prédios eram todos residenciais, disse ele, e era um bom lugar para ficar. Finalmente ele fez uma rotatória e parou em frente à uma casa branca, de esquina. Era um hostel (chamado "Nomade", foto acima), e ele foi perguntar se havia vagas. Desci do carro e entrei na casa.

Um rapaz estava na recepção, e queria me cobrar 35 dólares por um quarto privativo (confesso que estava com receio de pegar um quarto compartilhado). Subimos até o terceiro e último andar e olhei o quarto. Uma cama, uma estante com uma TV, uma mesa, banheiro, chuveiro... ok. Mas era hora de negociar. Após muita conversa acabou ficando por 50 dólares por duas noites. Ainda era meu primeiro dia de viagem, e não sabia que, comparativamente, ainda era bastante "caro". Ainda tentei negociar com o motorista do táxi que, teimoso (e provavelmente querendo receber uma comissão do hostel), ainda me esperava lá embaixo. Paguei em dinheiro peruano o preço da corrida e ele ainda teve a cara de pau de deixar o número de celular dele, caso eu quisesse algum serviço de táxi pela cidade.

Peguei minhas coisas, a chave e subi para o quarto. Estava instalado.