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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

cap 6: Centro Histórico parte 2 - Lima

O Centro Histórico de Lima foi considerado pela Unesco como Patrimônico Cultural da Humanidade em 1988. De acordo com a Wikipedia, a cidade foi fundada em 18 de janeiro de 1535 pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro. O Centro Histórico é formado pela "Plaza de Armas", a Catedral de Lima, o Palácio do Governo e uma série de outros prédios e lugares circundantes. Havia uma "eletricidade" interessante no ar, uma mistura de antiguidade e tradição com modernidade que me pareceu interessante. Mas não era uma modernidade "século XXI". Os ônibus antigos, os táxis e os prédios davam à paisagem um ar ainda de século XX, uma sensação de "deja vú" engraçada.

Em alguns prédios há umas sacadas muito interessantes nas janelas. Elas são de madeira e fechadas como uma caixa, parecendo por vezes um vagão de trêm pendurado para fora da casa. Segundo escutei de um guia no dia seguinte (aguardem a história), estas sacadas eram feitas deste jeito para que as "senhoras" peruanas de antigamente pudessem ver sem serem vistas.


Fui andando pela Plaza de Armas, obervando e tirando fotos. Me chamou a atenção um carro blindado do exército parado ao lado do Palácio de Governo...será que estaria havendo algum problema político? Pelo que vi depois, não. É bastante comum em Lima se ver soldados do exército fazendo vigia em pontos tão estranhos quanto a reforma de uma rua, por exemplo. As portas da Catedral estavam fechadas, a não ser que aquela porta ali à esquerda fosse a entrada? Atravessei a rua e fui até a grande porta de madeira. Um senhor de cabelos brancos estava parado à porta, como que mantendo guarda. Entrei.

O interior da Catedral era bonito, mas bem menos rebuscado do que outras igrejas que vi depois. Uma missa estava sendo celebrada naquele momento, mas apenas uma meia dúzia de senhoras estava assistindo. Fui caminhando e escutando a celebração em espanhol que, do que me lembro dos tempos de criança, era exatamente igual às missas aqui no Brasil. As senhoras começaram a cantar uma música cuja melodia também já havia escutado em igrejas brasileiras. O altar era dourado, mas simples. A luz do sol entrava por uma alta cúpula. Resolvi sair e continuar minha exploração.
Voltei a atravessar a praça e fui ver mais de perto o Palácio do Governo, originalmente a casa de Francisco Pizarro, hoje residência oficial do Presidente Alan García. Sob um calor de mais de 30 graus, soldados fardados guardavam a porta do Palácio. Boa sorte para eles.

Um monte alto havia chamado minha atenção quando estava na praça. Entre o Palácio do Governo e a Catedral de Lima havia uma rua estreita, com prédios baixos e coloridos. Por trás deles eu podia ver um monte (ou montanha?) com uma cruz no alto e, pintada na lateral, em branco e vermelho, havia uma grande bandeira do Perú. Que lugar seria aquele? Eu não posso ver uma torre ou um mirante que tenho vontade de subir para poder apreciar a paisagem do alto, então fui andando em direção ao tal monte.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

cap 5: 7 de janeiro - Centro Histórico - Lima

"TODA AREQUIPA! TODA AREQUIPA! TODA AREQUIPA!", gritava, a todos pulmões, o cobrador do ônibus. Em Lima os ônibus parecem peças de museu, correndo pelas ruas para cima e para baixo com suas cores fortes, seus motoristas malucos e cobradores que ficam em pé, na porta, gritando o itinerário e praticamente puxando os passageiros para dentro. Parece as lotações que, ultimamente, se tornaram comuns nas grandes cidades brasileiras. "Arequipa", que o cobrador gritava sem parar, é o nome da grande avenida em que estávamos, a caminho do centro da cidade. Eu, na cara e na coragem, dispensei o ônibus turístico e os táxis e resolvi conhecer a cidade com o "povão", nos ônibus de linha mesmo. Passei o endereço que ia (Rua Emancipación), me sentei, cruzei os dedos, esperando que estivesse indo para o lugar certo. Mas, sinceramente, a viagem estava tão divertida e "exótica" que já estava valendo a pena.
Como já disse, mas repito, o trânsito era absolutamente maluco. Os motoristas de ônibus ficam disputando quem chega primeiro no próximo ponto, ficam em fila dupla, buzinam, reclamam, xingam, tudo isso enquanto o cobrador fica controlando a porta, a cobrança dos bilhetes e gritando o destino. De vez em quando eu dava uma olhada para o cobrador, que respondia: "Falta, falta!", e algo que deveria querer dizer "te aviso quando tiver que descer". Enquanto isso eu ia olhando a paisagem, o povo nas calçadas, alunos saindo da escola, lojas, igrejas, vários parques. Lá pelas tantas entrou um pedinte, com exatamente o mesmo discurso que já havia escutado de tantos aqui no Brasil, dizendo que tem que comprar algum remédio, a situação está difícil e eles precisam de uma contribuição voluntária dos passageiros. Os carros nas ruas, estranhamente, pareciam todos ter passado um pouco da data de validade e, salvo poucas excessões, eram de marcas japonesas como Toyota ou Nissan.
Finalmente, depois de uns vinte minutos chacoalhando no ônibus, sob o olhar dos outros passageiros (era o único turista a "bordo", sem dúvida), o cobrador me fez um sinal, me apontou uma rua e disse "Emancipación!". Soltei um "gracias!" e lá fui eu. Parecia que estava em algum campo de batalha. A avenida estava em reforma, com grandes montes de terra no meio da rua, e os pedestres se espremiam em uma calçada estreita. Seria este o "centro histórico" de Lima? Fui andando por entre as pessoas, passando por um monte de pequenas lojas que vendiam de tudo, sapatos, relógios, materiais eletrônicos... me senti na própria 25 de março, em São Paulo. Havia um guarda em uma esquina, na frente de um Banco, e perguntei sobre o Centro Histórico. Ele respondeu "Sim, sim...é aqui". Quando já estava para me desesperar, ele apontou para uma rua e disse que a "praça" ficava naquela direção. Menos mal, lá fui eu na direção indicada. Cheguei então à "Plaza de Armas" de Lima. O nome "plaza de armas" é usado para designar a praça principal das cidades, onde geralmente fica a igreja principal e os prédios do governo. Cheguei a uma praça grande, cercada por ruas largas por onde os carros circulavam antes de mergulhar novamente nas ruas estreitas ao redor. Para chegar à praça, passei por duas grandes construções imponentes, de cor amarela, da prefeitura de Lima. A praça em si tinha um chafariz no meio, palmeiras, vários canteiros floridos e a decoração do Natal, que ainda não havia sido retirada. À minha frente, a grande Catedral de Lima. À esquerda, o Palácio do Governo. A Catedral tem duas torres altas, pintadas de cinza claro, e me pareceram ter sido restauradas recentemente. Entre as torres, a fachada da igreja aparentava mais idade, com três grandes portas de madeira. Os relógios marcavam duas e meia da tarde.



(continua)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

cap 3: 7 de janeiro - Lima - Peru


Pés no chão, depois de cinco horas de viagem de avião de São Paulo, tratei de ir trocar dólares por dinheiro peruano. Antes, logo ao descer do avião, tive que preencher um formulário de entrada no país e passar pela imigração e alfândega. Este seria o verdadeiro teste da questão do passaporte: ele seria necessário ou o RG só serviria? Ao preencher o formulário de entrada já fiquei bem tranquilo, pois havia até uma opção para marcar se você estava viajando com passaporte ou carteira de identidade. Um senhor me atendeu, pegou meu RG, preencheu um papel e me disse:
"Este papel você não pode perder, cuide muito bem dele!". Era a prova de que minha entrada no país havia sido legal. Eu sou terrível para guardar papéis (como veremos em um capítulo mais para frente), então o guardei junto do dinheiro, na carteira. Falando em dinheiro, ainda no aeroporto troquei 400 dólares por "Soles" peruanos. A cotação estava em aproximadamente 3 sóles para cada dólar, o que significa que tinha mil e duzentos sóles no bolso ao sair para o sagão do aeroporto.
E agora? Eu até havia feito uma reserva por e-mail em um hostel que vi em um fórum de mochileiros do orkut, e eles haviam me prometido, também por e-mail, que um táxi estaria me esperando no aeroporto. Havia vários motoristas segurando plaquinhas com nomes de hotéis e de passageiros, mas não vi meu nome, nem do hostel, em lugar algum. Eram 11:26 da manhã, e decidi procurar um outro hotel na "raça". Não conhecia absolutamente nada em Lima, a não ser o nome do bairro "chique" da cidade: Miraflores. E foi então que cometi meu primeiro erro. No Perú, você NUNCA deve entrar em um táxi sem combinar o preço antes. A base de preço que eu tinha era que o hostel onde eu havia feito reserva iria me cobrar 15 dólares pelo serviço de táxi, então eu, ingenuamente, achei que qualquer um que eu pegasse por ali cobraria mais ou menos a mesma coisa. E mais, achei que se eu fosse até a rua e pegasse um diretamente lá fora seria mais barato e tranquilo do que seguir alguns dos motoristas que estavam caçando passageiros lá dentro do aeroporto. Confesso minha estupidez, e que sirva de lição para quem está lendo isso. O caso é que fui lá para a rua, lá fora do sagão do aeroporto, e vi um homem me fazendo sinal.

- Táxi, senhor? - ele perguntou.
Bom, eu tinha que pegar algum mais cedo ou mais tarde, certo?
- Sim - disse eu.
E lá fomos nós. Entrei em um carro comum (novamente, bobagem da minha parte...onde estava a plaquinha de "Táxi" em cima do carro?), e o motorista, muito falante e bem humorado, foi dirigindo. Me perguntou de onde eu era, para onde estava indo, aquele papo internacional de taxistas. Falei que era de São Paulo, descrevi a cidade, comparei o trânsito que via na rua com o de São Paulo... tudo isso enquanto tomava minha primeira lição de trânsito em Lima: é um caos. Os motoristas parecem ter uma ligação direta entre o acelerador e a buzina, que ficam tocando o tempo todo. Do chão a cidade me pareceu bem menos desoladora do que o quadro que vi lá do avião e até se parecia com algumas regiões mais planas de São Paulo. Fiquei também aliviado pelo fato de que o espanhol falado pelo motorista me soava bastante claro e que conseguia entender boa parte do que ele estava falando, e vice versa, de modo que a comunicação, aparentemente, não seria um problema. Foi então que, no meio da viagem, eu fiz a pergunta fatal.

- Quanto custa até Miraflores?
E o motorista, grande sorriso nos lábios, me disse tranquilamente:
- Quarenta dólares.

Como é?!? Ai ai ai... quarenta dólares? E o motorista começou com um papo de que ele trabalhava para um serviço "especial" do aeroporto, e puxou do bolso uma "tabela" que me deu, mostrando o valor da corrida, acrescentando orgulhoso que ele iria me dar um recibo pelo pagamento e assim por diante. Sentado ali, dentro do carro, em uma cidade que nunca havia posto os pés, cansado depois de cinco horas de viagem, tive que aceitar minha própria burrice e dizer adeus para 40 dólares logo na minha primeira experiência da viagem. Ao menos já estava "vacinado" e alerta. O motorista, ao saber que ainda iria procurar por um hotel, tentou me empurrar para um que cobrava 60 dólares por noite, o que recusei. Ele sugeriu outro de 50 dólares. Não, obrigado.

Enquanto isso, ele pegou uma avenida que seguia junto à praia, que me mostrou, sorridente. Para quem é do Brasil, confesso que o cenário estava longe das praias brasileiras. À esquerda do carro, barrancos enormes. À direita, um mar cinza escuro ia dar em uma praia pedregosa. O morotista pegou uma esquerda, subiu o "barranco" e me apontou uma região com ruas largas e grandes prédios.
- Miraflores - disse ele.
Sim, depois eu descobri que era bonito, mas por enquanto ainda estava pensando nos meus 40 dólares, e em quanto essa viagem iria custar. O motorista me disse que o bairro era muito seguro e me apontou os policiais nas esquinas. Os prédios eram todos residenciais, disse ele, e era um bom lugar para ficar. Finalmente ele fez uma rotatória e parou em frente à uma casa branca, de esquina. Era um hostel (chamado "Nomade", foto acima), e ele foi perguntar se havia vagas. Desci do carro e entrei na casa.

Um rapaz estava na recepção, e queria me cobrar 35 dólares por um quarto privativo (confesso que estava com receio de pegar um quarto compartilhado). Subimos até o terceiro e último andar e olhei o quarto. Uma cama, uma estante com uma TV, uma mesa, banheiro, chuveiro... ok. Mas era hora de negociar. Após muita conversa acabou ficando por 50 dólares por duas noites. Ainda era meu primeiro dia de viagem, e não sabia que, comparativamente, ainda era bastante "caro". Ainda tentei negociar com o motorista do táxi que, teimoso (e provavelmente querendo receber uma comissão do hostel), ainda me esperava lá embaixo. Paguei em dinheiro peruano o preço da corrida e ele ainda teve a cara de pau de deixar o número de celular dele, caso eu quisesse algum serviço de táxi pela cidade.

Peguei minhas coisas, a chave e subi para o quarto. Estava instalado.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

cap 2: 7 de janeiro - Chegando em Lima - Perú

Fazia exatamente dez anos e um mês que não entrava em um avião. A última vez havia sido em dezembro de 1998, quando voltei do Japão em um longo voo de mais de 32 horas (Tokyo, Seattle, Miami, São Paulo). Eu havia morado lá por quase um ano, trabalhando em um hotel. Qualquer dia, talvez, eu conte aquela viagem. Só sei que enquanto esperava pelo voo TAM JJ 8066 no portão de embarque número 2 em Guarulhos, confesso que estava um pouco nervoso. Aviões são ótimos meios de transportes, comparavelmente muito mais seguros do que ônibus e carros, mas...

Um peruano (ou ao menos parecia peruano) dedilhava um violão. Algumas crianças estrangeiras, loiras e branquinhas, brincavam de subir nas cadeiras e pular, gritando em inglês. Um casal alemão, com mochilas enormes, junto a um crescente número de pessoas, também aguardavam o chamado para o embarque. Ele veio por volta das 7:30 da manhã. Respirei fundo, dei adeus ao Brasil e embarquei na poltrona 18F do Airbus A320, para minha viagem São Paulo-Lima, sem escalas.

Meu nervosismo era infundado. Sim, é meio assustador quando a aeronave pára no início da pista e parte, como um carro de "dragster", a trezentos quilômetros por hora. Você fica olhando pela janelinha a pista passar, passar, passar....e nada do avião subir, aparentemente até o último metro possível, quando as 160 mil toneladas do A320 finalmente se levantam do solo e começam sua jornada pela atmosfera. E então é aquele curioso espetáculo de cruzar as nuvens e ver o mundo lá de cima. Nessa era de Google Maps e Google Earth, não deixa de ser engraçado perceber que nossa percebção de mundo mudou; já não é mais assim tão estranho ver o mundo lá embaixo. De qualquer forma, o tamanho descomunal da cidade de São Paulo impressiona, não importa a altitude em que se esteja. O voo partiu por volta das 8:30 da manhã de Cumbica e estava programado para chegar às 10:30 da manhã, horário local, no Perú. Só que há três horas de diferença (para menos) entre o horário de Lima e o de Brasília, de modo que a viagem, na verdade, teria duração de aproximadamente cinco horas.


Grande parte deste tempo eu passei, qual criança, de olho na paisagem lá fora. É verdade que chega uma hora que a sucessão de campos verdes, entrecortados por estradas ou rios fica cansativa. O caso é que, após acordar de uma cochilada rápida, tudo havia mudado lá fora. A paisagem verde foi substituída por tons de cobre, marrom e areia. Claramente já não voava sobre o Brasil. A bem da verdade, parecia mais que estava sobre o planeta Marte! Era mais provável que sobrevoasse a parte oeste da Bolívia ou mesmo o Perú. Por todo o avião ouvia rumores e comentários entusiasmados dos outros passageiros. Até que o avião chegou ao Pacífico, virou à direita e começou a subir a costa, em direção de Lima. Assim, do meu lado do avião podia ver a paisagem "marciana", enquanto do lado esquerdo os passageiros viam o azul do mar. Este contraste entre água e terra seca eu veria novamente alguns dias mais tarde, quando parti de Lima.
Falando em Lima, finalmente lá estava ela. Cidade grande, com 11 milhões de habitantes, Lima é a capital do Perú, antiga capital do Vice Reino, durante o período da Colonização Espanhola. Sua posição geográfica, a oeste dos Andes, e algumas condições atmosféricas especiais produzem um fato interessante: não chove na cidade há anos. Do alto, Lima me parecia alguma cidade do deserto africano. Tudo muito seco, milhares de casas, ruas e estradas aparentemente cobertas por uma poeira avermelhada. O sinal de apertar o cintos do avião se acendeu e o piloto, em espanhol (e em algo que ele achava que era inglês) avisou a tripulação para se preparar para a aterrisagem e, novamente, comecei a imaginar se não teria sido melhor vir de ônibus, trem, cavalo... qualquer coisa menos naquela máquina que virava de um lado para outro, por sobre o Pacífico, se preparando para pousar. O avião circulou por uma grande baía e vi vários tipos de barcos lá embaixo. Finalmente, começou a descer de verdade até tocar, com muito mais leveza do que estava esperando, o solo peruano.
Havia chegado a Lima.

cap 1: Antes de partir

Seis e cinquenta da manhã. Cumbica, Guarulhos. Havia acordado às quatro da manhã, em Vinhedo, para ligar para a Viação Caprioli, em Campinas, para avisar que eu iria pegar o ônibus das quatro e meia da manhã para Cumbica. Bagagem em punho, meu pai me deu uma carona até o posto gasolina do Lago Azul, na Anhanguera, para esperar pelo ônibus. Ele chegou quase cinco da manhã, cheio, e lá fui eu para a primeira etapa da minha viagem. Viagem que, por pouco, não aconteceu.

Como disse no primeiro post, ir a Machu Picchu havia sido um sonho por vários anos de minha vida. Mas havia sempre algo a me "segurar" e me "impedir" de ir. Havia a questão financeira e os preços relativamente altos dos pacotes impressos nas revistas de viagem. Eu era casado, depois veio um filho pequeno... fatos da vida que nos fazem, por vezes, deixar os sonhos "esquecidos" para se concentrar em coisas mais práticas.


Mas não agora. Estava separado fisicamente da ex-esposa há anos. Mentalmente, o ponto final chegou um pouco mais tarde, mas finalmente chegou. O filho já estava com sete anos, enorme, "independente". A questão financeira, analisando melhor e esquecendo os pacotes das revistas, se mostrou não tão complicada assim. E, finalmente, a última barreira, a mental. Machu Picchu é um lugar real, não é um devaneio da imaginação ou uma civilização extraterrestre. Ela está lá, no topo dos Andes. Grosso modo, a única coisa que você deve fazer, se quiser ir até lá, é levantar e partir. Era chegada a hora.


A não ser que os trâmites burocráticos pudessem impedir. No final de 2008, viagem praticamente decidida na cabeça, surgiu uma dúvida: é necessário passaporte para viajar ao Perú? Se você por acaso está pensando em ir ao Perú e achou este blog no Google, deixe-me esclarecer uma coisa de uma vez por todas: NÃO é necessário passaporte para ir ao Perú. Repito: não é necessário. Mas aparentemente ninguém conseguia me dar uma resposta definitiva sobre isso. Meu passaporte estava vencido fazia alguns anos e, final de ano, a burocracia para tirar outro iria demorar demais. Em Campinas, onde trabalho, estavam agendando entrega de documentos apenas para o final de janeiro de 2009. Então me sugeriram tentar em Piracicaba, que estaria emitindo ainda o modelo antigo, teoricamente mais rápido, de passaporte. Preenchi os formulários pela internet e, mesmo lá, consegui agendar a entrega de documentos somente para o dia 5 de janeiro de 2009. Um site de mochileiros para onde enviei um email perguntando não me aconselhava viajar sem passaporte. O próprio consulado do Perú me dizia que o RG oficialmente podia ser suficiente, mas que na prática eu enfrentaria toda sorte de problemas.


Já havia praticamente desistido da viagem durante as festas de final de ano. Passou o Natal, o Ano Novo e eu já estava achando que passaria minhas férias em alguma praia mesmo. Até que em um fórum do orkut li o relato de uma garota que havia feito a mesma viagem que eu queria fazer apenas com RG. Enviei uma mensagem para ela, que me confirmou tudo. De repente, a viagem parecia novamente possível. Mas como teria no máximo quinze dias para realizá-la, resolvi deixar de lado meus planos mais aventureiros, que envolviam ir de ônibus até Corumbá, em uma viagem de 20 horas, para depois atravessar toda a Bolívia antes de chegar ao Perú e tentar encurtar um pouco as coisas por via aérea. Após muito fuçar na internet e conversar com o telemarketing da TAM, comprei uma passagem de avião que partiria de São Paulo dia 7 de janeiro até Lima, Perú. De lá eu faria a viagem contrária, por terra, em direção ao Brasil. Mas como uma passagem só de ida custava praticamente o mesmo que uma de ida e volta, marquei a passagem de volta para o dia 22 de janeiro, partindo de Santa Cruz de La Sierra, Bolívia.


Dia 5 de janeiro, como já estava marcado, ainda fui a Piracicaba entregar os documentos para meu novo passaporte, que só ficaria pronto dia 13 de janeiro. Novamente houve desencontro de informações, mesmo na Polícia Federal, sobre a necessidade ou não de passaporte para entrar no Perú. O rapaz que me atendeu me disse que a Argentina até aceitava RG, mas ele teria que ser bem recente, com no máximo cinco anos de emissão. Com a pulga atrás da orelha, resolvi ir ao Poupa Tempo de Campinas para tirar um RG novo em folha, o que me custou boa parte dos dias cinco e seis de janeiro.


Assim, dia sete de janeiro, com RG novo, sem passaporte e mochila nas costas, lá estava eu no Aeroporto de Cumbica.


(continua na próxima edição)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Prólogo: Felicidade compartilhada, ou "O que é este blog?"

Olá. Meu nome é João Solimeo, sou editor de imagens e trabalho na PUC-Campinas. Basicamente meu trabalho consiste em editar matérias e telejornais para os alunos de Jornalismo, comerciais para Publicidade, institucionais para Relações Públicas, etc.

O que é o "15 Dias pelo Perú e Bolívia"? Recentemente voltei da viagem descrita no título. Foi minha primeira viagem sozinho pela América do Sul. Uma viagem que começou como uma idéia na cabeça anos atrás: "Um dia eu vou à Machu Picchu". No final de 2008, após um ano cansativo mas proveitoso no trabalho e algumas definições na minha vida pessoal, resolvi pôr em prática o sonho e partir para o Perú. A princípio seria uma viagem mais no estilo "mochileiro", feita inteiramente por via terrestre, mas acabou contando com uma parte aérea. O que não significa que não tenha passado por aventuras. Fui sozinho e sem um roteiro muito definido. Não houve auxílio de agências de viagem ou de intermediários. Na minha mochila (pequena), havia apenas duas calças jeans, cinco camisetas, sete cuecas e algumas meias. Levava dinheiro em uma carteira amarrada ao cinto da calça do lado esquerdo e, em uma bolsa masculina pendurada de atravessado no peito, minha fiel Cybershot H-10, três baterias, quatro cartões de memória (num total de 8 Gb de espaço para fotos), um caderno para anotações e uma caneta. E era isso.

Como vai ser organizado este blog? Sinceramente, ainda não sei. Só sei que tenho vontade de dividir com vocês minhas experiências nestes incríveis 15 dias de viagem. Sei também que tirei aproximadamente 2.700 fotos, algumas das quais serão usadas para ilustrar este blog. Aviso também que gosto MUITO de escrever, e gosto de escrever MUITO. Para quem já conhece minhas críticas de cinema, isso não é novidade. Sem dúvida, este é um dos motivos para me fazer voltar à faculdade, aos quase 37 anos de vida, para estudar jornalismo. "A felicidade só é real se for compartilhada", escreveu Alexander Supertramp no filme "Na Natureza Selvagem". Um dos possíveis nomes para este blog, aliás, era exatamente este: felicidade compartilhada.

Compartilhem, assim, meu relato, e façam bom proveito.